TEXTOS SOBRE A ARTISTA
Corpo-casa (ou Casa-Corpo)
Paisagens internas
Escrever cartas está fora de moda. Essa prática milenar, que se perdeu na era das comunicações digitais, é também um gênero literário, o epistolar, que participa da construção do “eu” moderno: espelho e invenção de si. Ao escrever, colocamos em palavras — transformamos em linguagem — sentimentos, memórias, angústias. Por meio das cartas que escreve, Marília Diaz nos oferece um bocado de sua história, da sua interioridade.
Contudo, o destinatário não é uma pessoa, mas uma entidade habitada e habitante: a casa, paisagem interior que constitui e atravessa a artista. No espaço expositivo, essas cartas ganham outras dimensões – configuram um gesto poético, uma forma estética endereçada a nós, público. Somos leitores-confidentes da sua narrativa. Arrebatados, vemo-nos dentro daquelas casas. Ouço o ranger das tábuas no chão. Testemunho íntimo que, compartilhado, revela a dimensão coletiva de tantas experiências humanas. Livro aberto. Campo da partilha, da palavra exposta, da memória que se oferece ao olhar. Casas habitadas que nos habitam, presentes no corpo. Corpo-presente.
O trabalho de Marília Diaz pede mais de uma linguagem; há sempre algo que resta, que não se deixa apreender por completo. Espírito inquieto, presença solar. Precisa transmutar sua imensidão por meio de várias formas. Os fazeres manuais – herança de Dona Mirtes, bordadeira daquelas – têm sido um potente meio de expressão. Na Casa da vó Marica, o labor das mãos mostra a delicadeza que sustenta o mundo. Um meio tão delicado, fino, frágil; uma representação tão robusta e estruturada. Matéria. Que irrompe na crueza dos bustos, presenças quiçá masculinas sem rosto, vultos que habitaram essas casas? Interlocutores silenciosos das cartas que ficam pelo caminho. Livro fechado. Aquilo que resiste em se tornar linguagem.
Mas é no manuseio do barro, com toda a ancestralidade dessa prática, que nossa artista encontra o caminho para destrinchar a sua questão. Qual é o meu lugar? O que guardamos na gaveta? A casa que conforma e encorpa também pesa. Doméstico vem do latim domus, casa.
Já no verbo domesticare (tornar da casa, tornar familiar), pulsa uma tensão entre o gesto de acolher e o de dominar, amansar. A casa sem teto é aberta às intempéries das lembranças, mas também ao céu e à luz das estrelas. É nela que a artista encontra abrigo: no espaço onde o que falta é o que também sustenta.
Curitiba, outono de 2025
Amélia Siegel Corrêa
Socióloga e Historiadora da Arte
A casa adormeceu...
Oiço o ligeiro martelar dos toques da sombra...
As idades do mundo. A casa. Abade Joaquim de Flora.
Na condensação de memórias está a nascença, a multiplicação de presenças, os ritos e costumes, as passagens e as frestas. A casa é onde está tudo o que sou. Lugar das lembranças para tornar caro. O ranger do chão, a luz espalhada, os ritos de aparecimento e morte, as palavras não ditas, os odores e gostos. Pormenores da domesticidade, da ancestralidade.
Questões abstratas materializam o espírito, formam o caráter de um lugar.
Presentemente, sou o que da casa me habita.
Um novo imaginário se conforma. O imaginário do regresso, onde a casa, na deslocação, multiplica-se em sete corpos.
Compartilhando as peles de Hundertwasser nos limites do dentro estão a célula geradora da vida, o corpo materializado, a roupa – que também abriga –, a casa, a cidade, o planeta e o túmulo, extrema morada. Caminham na mesma polaridade. São todos casas.
Para materializar estas apreensões, lanço mão da linguagem dos têxteis e da cerâmica . Em tecidos, bordo as casas que me são caras: a casa em que fui concebida, aquela em que nasci, onde passei a infância, e aquela onde morei na juventude. As casas que compartilhei com mais de um, as casas em que fui educada, em que trabalhei... A casa primeva, a casa de meus avôs maternos, matriz de todas as outras. A arqueologia familiar fala do tempo pregresso, mas também do cor + côvado = para onde eu vou. Futurar.
Pormenores da domesticidade, da ancestralidade. Questões abstratas que materializam o espírito, formam o caráter de um lugar.
Com as pastas cerâmicas modelo os sete corpos, as sete casas. Repito à exaustão.
Submetidas ao fogo em diferentes temperaturas, ganham outra materialidade na multiplicidade de cores. A casa é elevada a espaço de silêncio, ao extraordinário para uma nova reelaboração, para a invenção de um outro lugar. O lugar da memória.
Nomino, com a alcunha das mulheres que me precederam, as casas que me são caras. E escrevo cartas como uma forma de intensificar a presença mnemônica e a afeição. Não espero resposta. São todas espectros.
Marília Diaz
Terra - Seixal - Outono - 2025
A FLOR E A PELE
Sempre tive a impressão ou o sentimento da fragilidade dos seres vivos como se fosse necessária uma energia formidável para que eles consigam por – se em pé. (A. Giacometti)
“À flor de” segundo o dicionário, significa “ao mesmo plano de”. Tomemos como ponto de partida para o desafio de nos confortarmos com a obra multiforme de Marília Diaz, divagações de uma analogia entre flor e pele, sabendo de antemão que teremos mais questionamentos do que respostas. Melhor então seria dizer que são indagações. A incerteza é a lei. Entremos.
Com a flor, símbolo do princípio passivo, põe-se em evidência o universo da sexualidade e da sensualidade: é emblemática de reprodução. Manifesta a extrema diversidade do universo. Mesmo sendo um elemento de individualização da planta, ela transcende esta realidade individual e através da sedução exercida por sua materialidade, sua cor, e seu odor, se alia às demais plantas, cumprindo a unidade com o gênero e com a natureza,com o todo. Do particular ao geral. Símbolo também da instabilidade, não da versatilidade que seria própria da mulher, mas da instabilidade essencial do ser, destinado a uma evolução em constante devir e sobretudo do caráter circunstancial da beleza: efêmera brevidade da vida, da beleza e do prazer. Afinal, estamos todos de passagem, não?
PELE – PELÍCULA – PLUMAGEM – PAISAGEM. Estas quatro palavras afloram de repente e é o caso de se perguntar: o que diz melhor do que a flor (e talvez, sobretudo nas formas de fragmentos, de pétalas), que a artista procura uma pele que lhe falta, uma pele que ela possa constituir materialmente?
As frágeis pétalas de rosas vermelhas são apresentadas desidratadas, ressecadas, usadas, maceradas, dispersas no ambiente. São testemunhas do registro da duração, frutos da paciente recolta e da espera pela ação do tempo. É uma ação que induz a participação no lento processo de composição e recomposição que anima a natureza. Pela sua relação com o sangue derramado, a rosa vermelha aparece como um símbolo de um renascimento místico. Vermelho eminentemente sagrado e secreto, cor da alma, da libido, do coração, cor da ciência, do conhecimento esotérico, traz nela intimamente ligadas às duas mais profundas pulsões humanas: ação e paixão, liberação e opressão. O vermelho é matricial.
Formas semelhantes a pétalas, porém rígidas, com uma extremidade em forma de agulha e dispostas na parede sugerem uma outra interpretação: as agulhas sempre ferem (como as flechas) e evocam a idéia de obstáculo, de defesa e/ou ataque exterior. Sua disposição elaborada na parede contrasta com a dispersão casual horizontal e passiva no solo das outras pétalas, lhes conferindo um aspecto mais ativo e dinâmico.
Marília se utiliza da pétala também como um tipo de matriz formal, uma forma-mãe ou matriz que repetida, ao mesmo tempo que transformada, torna-se o equivalente de uma matéria plasticamente maleável. A cerâmica, material do qual são feitas, é uma forma de expressão bruta, que trabalha com as matérias primordiais que são os quatro elementos das nossas mitologias: terra, ar, água e fogo. A modelagem da argila e suas propriedades inerentes de ductilidade, firmeza, elasticidade e umidade variáveis, fazem referências a manipulações arcaizantes. Em contraste com a docilidade da argila a estrutura em ferro que as suporta remete à inflexibilidade e robustez do material, assim como, ao seu simbolismo também ligado à fertilidade. O título Por água abaixo, nos coloca a dúvida sob o signo de algo desejado mas, não realizado, ou em ruínas. Tudo participa de um equilíbrio e de uma oposição entre materiais com consonâncias arcaicas e do outro a inteligência e sofisticação formal da obra.
Nas peças que têm como título Ou isto ou aquilo, encontra-se a dualidade torturador/torturado (corto ou sou cortado) e esta ambivalência é representada por uma mistura de superposição e de continuidade, uma alternância como um jogo de cartas. Produzir arte é se auto-descarnar. A figura do descarnado é para os artistas de tendência expressionistas (como, por exemplo, Francis Bacon) uma alegoria da criação artística moderna; houve pintores (Fontana) que inclusive rasgaram a tela “como a uma pele” como alegoria de uma atitude de auto-flagelação. Quanto mais intensamente praticada, mais difícil torna-se o exibir suas tripas. Doar a própria pele. Isto sem falar do risco, sempre iminente, de algo que pode (literalmente) cair sobre nossas cabeças.
A utilização de restos como o pó de café na obra Chananas para Lenilde, remete aos sinais do tempo que passa: o resto é dotado de memória, portador de uma soma de experiências, permitindo-lhe magnificar o cotidiano, o que normalmente é rejeitado e desprezado quer seja por ter perdido o seu valor de uso (o café) ou por não dispor deste valor devido sua gratuidade (como estas flores vadias que são as chananas). O principio da recuperação de materiais corresponde a uma prática anti-diluviana, conferindo-lhes um segundo momento, dando nascimento a um objeto novo, totalmente singular, dotado de individualidade, prestes a surpreender. Inclusive a chanana, segundo estudos recentes, pode ser usada para problemas de infertilidade.
Percebo que abordei na minha aventura quatro eixos: material, matriz, matéria, maternidade, colocando em alerta meus sentidos para tentar compreender o incomunicável, entender o incompreensível. Marília busca formas, figuras e elementos simples e sensíveis, gênese de um vocabulário formal e material “pobre”, onde entra a necessidade de escolhas fora do seu contexto habitual; para chegar a figuras absolutas que contém nelas mesmas sua própria inteligibilidade. Toda representação é também uma representação meta-pictórica e manifesta uma iconicidade circular ou especularidade interna que faz com que ao mesmo tempo em que ela se exibe, ela nos fale também de como se deu a sua origem. Falando assim de si mesma a obra de arte se apresenta para nós segurando a pele viva ou morta do processo criador que a produziu.
Maria do Carmo Nino
Artista Visual e professora da UFPE - Recife
A NAVEGAR RUMO ÀS TERRAS INSULARES DE MARÍLIA DIAZ
“... e no desembarcar, há aves, flores,
onde era só, de longe a abstrata linha.”
Fernando Pessoa
Depois de muito navegar mar adentro, dias e dias e dias...terra a vista! Fui aportar novamente na casa-atelier da artista Marília Diaz. Mas agora o espaço a percorrer era o da memória, onde estavam guardadas as lembranças da primeira vez que aportei por lá. Na demorada travessia, a linha do horizonte por alcançar e o desvelar dos enigmas de quem leva mar e ilha no nome. Silêncios, presenças, ausências, fragilidades, enfrentamentos.
Ao desembarcar pela primeira vez em sua casa, me deparei logo na entrada com um cavalinho-cadeira pendurado na parede, reminiscência de longínqua infância a anunciar memórias e encantamentos.
“... guardo objetos como uma galinha se põe sobre os ovos. Eu diria eu choco os objetos. Fico cuidando porque eles representam a expectativa de um estranho diálogo que transpõe tempos e espaços.”
Valter Hugo Mae
Começo a percorrer o espaço e a encontrar pequenos objetos guardados, as coisas pequenas requerem aproximação, chego mais perto de uma pequena vitrine... bonequinhas, xicrinhas, vasinhos de flor todos ali dispostos formando delicadas relações em seus microuniversos. Curiosa, pedindo licença abro uma gaveta e vejo pecinhas de cerâmica em formato de concha esperando emanar seus sons e cores.
Abro a porta do armário e encontro outras tantas miúdas peças cerâmicas guardadas em grandes potes de vidro. Todas aguardando navegar por mares de significados. Fiquei imaginando a artista modelando pacientemente uma a uma mergulhada em silêncios de mar profundo que foi lhe revelando suas pequenas formas minerais.
E a conversa continua embalada por chá e bolachinhas, eu ali uma ‘Alice no país das maravilhas’.
Ela abre outro armário e a navegação continua por outros mares...o das tramas tecidas tão afeitas simbolicamente aos fazeres femininos. Mostra panos de algodão recobertos por ela de bordados, crochê, aplicações de sinhazinhas e de pequenos objetos e palavras. Panos cheios de miuçalhas – ‘miuçalha’ palavra sonora usada por ela em um de seus textos e por me provocar cócegas nos ouvidos, me fez buscar seu significado: “conjunto de coisas miúdas”, e potentes na sua miudeza. Costuras, bordados, tramas que falam das muitas Penélopes que em compasso de espera tecem e destecem suas existências.
Em seguida, retira um grande livro de capa vermelha intitulado “Sobre todas que habitam em mim” com cinqüenta e nove páginas, simbolizando sua idade quando o criou. Começo a folheá-lo. A cada página, vamos as duas adentrando em espaços de tantas outras e de nós mesmas, por meio de imagens, bordados, colagens, costuras, palavras. ”Fazia muito tempo que eu não via este livro”, ela comenta. E pouco a pouco vamos ficando em silêncio, contemplando outro de seus mares profundos. O mar das venturas e desventuras do feminino.
Vez ou outra, tecíamos palavras...as minhas não davam conta...estava entregue e em viagem...a ouvir vozes que pareciam distantes, mas tão próximas. Fecho o livro sentindo o reverberar das muitas tessituras. Por fim, ela retira do armário trabalhos ainda em processo de criação, roupas femininas com bordados e aplicações que marcam no tecido as histórias de suas antigas ocupantes. Em especial um vestidinho branco infantil pulsando crenças, purezas, religiosidades.
Termino o percurso nas terras insulares de Marília a transitar por entre o cozer alquímico da argila e o coser dos entrelaçamentos de fios e tramas. E ela segue a navegar por mares de signos, indo aportar em terras lusitanas. De lá joga ao mar garrafas que guardam seus fundos segredos...segredos oceânicos de conchas, pérolas e corais...
“Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.”
Fernando Pessoa
Ana Procopiak
Artista visual, designer, professora e curadora
ARQUEOLOGIA DA MEMÓRIA
Assemblage ou instalação? Caixa/objeto ou escultura? Arte matérica ou cerâmica? O trabalho de Marília Diaz incorpora tudo isso e convida o espectador a pensar em situações ambivalentes, aparentemente antagônicas como o profano e o sagrado, o temporal e o eterno, o orgânico e o geométrico, o quente e o frio. Espaço e tempo cósmico. Presente e passado.
Possivelmente impulsionada por questões determinadas pela arte de nossos dias, como o embaralhamento de referências plásticas, diluição de fronteiras entre categorias técnicas, eliminação ou apropriação de suportes e materiais de todos os tipos, apropriação de referenciais históricos ou culturais. Marília experimenta as possibilidades da matéria bruta, combinando óxidos e argilas, inventando cores, texturas e produz uma cerâmica queimada em fornos de alta temperatura, em contraste com as matérias frias, auto-fraguantes. Mas também colecionando os descartáveis do que é consumido cotidianamente na intimidade de sua casa, como as cascas de ovos e pó de café, Marília constrói uma obra com um corpo de materialidade física e carga poética que só Bachelard em “A Poética do Devaneio” ou em “ A Poética do Espaço” poderia descrever.
Na intimidade de seu atelier, enquanto explora idéias e materiais, mergulha no tempo para fazer um inventário de suas memórias de infância. Uma espécie de arqueologia da memória. Relembra quando ainda pequenina, lá no Paraná, os momentos de convívio com sua avó: o design do fogão inglês, ou italiano? A coleta de ovos de galinha, de pato e de guiné. Pouco a pouco o passado se torna presente. Tempo subjetivo caracterizado por mergulhos no passado se revela no presente através dos ovos de cerâmica surgidos no seu novo atelier paraibano. Reinvenção de ritos e símbolos adormecidos. Uma nova vida, um novo clima, novos espaços, uma nova geografia. Surge o ovo repleto de simbologia. Principio de vida nova; o germe de toda criação; renascimento.
Por que “pecados capitais” se Marília origina sua obra na forma pura e perfeita do ovo? Mas não é sua obra também uma forma de ver e pensar sobre a condição humana, de seres ambíguos e imperfeitos que somos, em busca de ordem e da harmonia? Contrário ao ritual da confissão de pecados adotados na igreja católica em que o penitente ajoelha-se ao confessionário (uma espécie de caixa de confissões) para depurar-se dos pecados, aqui Marília incita o espectador a se erguer para ver os “pecados capitais”.
Em cada espaço uma poética. Seja nos objetos de parede, de pedestais ou de chão, cada elemento se afirma como secção de um todo harmonioso, inteiro. No átrio de entrada do Centro Cultural de São Francisco, a efemeridade da vida em seu cotidiano. Nos pedestais, os pecados capitais. Nas paredes do “Capítulo” ovos como símbolos da origem oculta da vida e mistério do ser, do útero ou da matéria orgânica em seu estado inerte. Ovo como símbolo da ressurreição e da esperança. Cada peça sugere a atemporalidade da ação artística e nos fala dos ritos, dos medos e prazeres humanos. Todos esses elementos formam o alfabeto da arqueologia de suas memórias. Mas sua obra é aberta e por isso se presta a múltiplas leituras.
Recife, Madrugada de 20 de setembro de 1999.
Sebastião Gomes Pedrosa
Artista visual, Professor Doutor do Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística da UFPE.
ESCULTURAS DE MARÍLIA DIAZ
Marília é uma fazedora de mundos. Mundos cerâmicos, corpóreos, terrígenos. Planetas habitados por pequenas criaturas que esperam, sonham, relembram outros tempos ou apenas permanecem em guarda. Mundos solitários, áridos, vulcânicos, fálicos, femininos, quentes.
Filhos do fogo, seus objetos nos suscitam o desejo do toque, atraídos que somos por suas texturas saborosas, de opacidade dominante. Por vezes, somos impedidos por uma barreira vítrea, que nos vem lembrar nem tudo é permitido, e nos alude à fragilidade do material. Fragilidade? Marília é assim, como a sua cerâmica: sutil delicadeza e resistência milenar unidas numa só essência.
E Marília é mais. É a sensualidade de “Leite de Rosas” e a fertilidade das romãs. É a feminilidade transbordante nas formas curvas de suas unidades orgânicas, que ora nos remetem ao fundo do mar, ora nos fazem viajar por paisagens cósmicas, ora nos transmitem o calor da anatomia íntima. Nessas oscilações, macro e micro presente, como um ponto focal para o nosso olhar imaginante.
Marília Diaz é uma contadora de histórias, que vem rechear nossas mentes e corações de significados poéticos.
Dulce Osinski
Artista visual e Professora Doutora da UFPR
FLORÍFAGAS
Além de formas, texturas e cores, dos dedos de Marília jorram sensações. Técnica e sensibilidade ativando forças: do seio da terra brota leite de rosas. Florífagas. Porque das entranhas surge o movimento que alimenta a unidade, que já alimentou a multiplicidade, que...
São as escalas do universo que se fundem, quando se fundem as criaturas-flores. Por desígno de fadas. Viceralmente.
Antônia Schwinden
Editora e escritora.
UMBILICADO
VIDA EM ARTE
A exposição de Marília Diaz, na Casa Andrade Muricy, tem como elemento primordial a procura da artista para encontrar e expor cotos umbilicais verdadeiros, ou seja, cordões umbilicais com sangue mumificado que eram, tempos atrás, coletados e guardados carinhosamente pelas mães, ao dar à luz seus filhos.
Marília Diaz cursou Educação Artística pela FAP e Pedagogia pela Tuiuti, fez especialização em Metodologia da Arte no Ensino Superior pela FAP/UFPR, Psicodrama Pedagógico na Clínica Contexto e Mestrado pela UFPR. É professora do DEARTES da UFPR.
Em suas pesquisas, a artista resgatou, através da oralidade, os diversos motivos pelos quais uma mãe guardava o coto umbilical de seu filho: o ato de guardar prende os filhos à mãe; enterrar embaixo da roseira – para a vida ser um mar de rosas; enterrar o coto diretamente na terra – a criança será amorosa, bondosa; enterrar embaixo de árvores – cada espécie proverá um tipo de qualidade - costume entre algumas tribos indígenas; jogar no curral- para ter sorte na vida; dar o coto para a vaca comer - será rica; enterrar embaixo da escada da igreja - será religioso; guardar e deixar perder para acompanhar o ciclo da vida ou até guardar e se o rato comer a criança será ladra.
Tendo os cotos umbilicais como núcleos de sua arte, Marília fez uso de muitos materiais como caixas de madeira e terra com vidro; almofadas de percal bordadas com o sobrenome das famílias que cederam os cotos; cerâmica vermelha vitrificada - impressão da cicatriz umbilical; tesoura cirúrgica; chave; moedas (utilizadas, até o passado recente, para que o umbigo não ficasse proeminente) e faixas de umbigo.
Na sala de exposição, estes materiais se mesclaram em unicidade compondo uma instalação sensível, muito intima ao falar do nascimento, das mitologias do cordão umbilical, na verdade, corpos que falam.
Ao mesmo tempo em que, cientificamente falando, além da missão de levar oxigênio, nutrientes e anticorpos à placenta e retirar do organismo do feto as impurezas produzidas pelo seu metabolismo, sabe-se, agora, que o sangue do cordão umbilical contém as chamadas células-tronco, as únicas com baixo índice de rejeição, capacidade ilimitada de auto-renovação e de gerar todos os diferentes tipos celulares do organismo – sangue, cérebro, fígado e músculos. Tanto é que nos grandes centros hospitalares está se instituindo a prática de congelar os cordões umbilicais para um futuro aproveitamento, no caso de doenças graves que a criança venha a sofrer: uma espécie de seguro para a posteridade. A palavra umbigo tem sua origem no latim umbilicus, diminutivo de umbo, com sentido de saliência arredondada em uma superfície e tem como significado o meio - definido como ponto central de alguma coisa.
Umbigo e cordão umbilical também formam um elo biológico entre a mãe e o filho constituem uma relação de dependência entre uma vida e outra; na figura humana é o centro do corpo e no subconsciente simboliza a vinculação do ser com o mundo exterior.
Na mitologia hindu, Brahma o criador do mundo, nasceu de uma flor de lótus que, por sua vez, havia nascido do umbigo de Vishnu (o que mantém o universo) enquanto este dormia sobre a água.
No texto “Umbilicado”, a artista sintetiza em palavras alguns dos conceitos que utilizou no desenvolvimento do trabalho, que, segundo ela mesma diz, tomou muitas noites e muitos dias na pesquisa e concepção da proposta: “No relicário de terra, recinto especial para guardar coisa preciosa e de grande valor, repousa o coto umbilical mumificado. A extremidade proximal da qual se amputou uma parte é guardada para religar o que foi uno, para aproximar e não deixar esquecer. Por sua vez a cicatriz determinada pela queda do coto umbilical impõe a cisão e a unidade. A sua reprodução em cerâmica vitrificada representa ‘aquilo que Morin identifica como frágil, alterável, pois um nada a deflora, a degradação e a morte surpreendem-na, e nós julgamos ou a queremos imortal’.”
Interessante notar as reações verificadas durante o trabalho de coleta dos cotos: vão desde o total desconhecimento deste costume, como, confesso, era o caso desta sua colunista; passam pelo ciúme – “Eu vou pensar se vou emprestar”; “É da minha filha, viu?”; pelo asco, nojo; pela desconfiança – “Estou com medo que seja usado para fazer feitiço”; e chegam à generosidade – pessoas desconhecidas telefonaram oferecendo os cotos dos familiares.
Fato curioso: durante a montagem da exposição, um vigilante da Casa Andrade Muricy contou que a mãe guarda os cotos dos 13 filhos.
Marília cita as pessoas envolvidas no processo de sua obra: Mirtes de Oliveira – bordadeira; Magali Cabreira – costureira; Rita Pires – confecção das caixas, montagem; Eliane Accordi – acabamento das peças de cerâmica; Sada Mohad – queima; Márcio Gonzales – montagem da exposição e Nilcéia Chuenes – coleta de cotos, a quem a artista agradece a colaboração
Nilza Knechtel Procopiak
Jornalista, escritora, crítica de arte
HISTÓRIA PARA MARÍLIA E PRISCILA
Sonhei com uma árvore imensa, frondosa,
Tronco largo, raízes profundas,
Flores coloridas e muitos frutos...
Frutos... Frutos...
Uns em pencas e cachos, outros em pares e dispersos.
O conjunto formava um templo onde os iniciantes repousavam;
Os sonhadores cantavam versos e prosas louvando o mito.
Nem répteis, nem aves de rapina tocavam os seus frutos...
Estes eram doces e macios, polpudos e viçosos.
Às vezes tombavam de maduro,
Outras tantas eram arrebatados para os céus;
Enquanto poucos rolavam morro abaixo.
Alguns deles se transformavam em sementeiras;
Os que voavam, fermentavam a massa e faziam o pão.
A árvore se agigantava enfrentando verões e invernos;
Outonos e primaveras.
E o tronco e os galhos eram eternos;
Porque somente o Verbo era alimento e vida.
O sonho terminou quando duas flores desabrochavam
Para brincar de germinar frutos num grande
“Quintal de terra”.
Maria do Barro
Alcunha de Maria Augusta Erich de Menezes, mulher de quem pouco se sabe, que se dizia autodidata, que balizou vidas dedicando a existência a conscientizar e motivar pessoas a ser e fazer arte, em especial cerâmica.
DE ALFA A ÔMEGA
A obra de Marília Diaz é capaz de transportar seu expectador em uma viagem pelo tempo. Suas peças em cerâmica com argila do km 4, do Barigui de Antonina, para a mostra Apocalipse na PUC/PR são a própria expressão de um percurso de alfa à ômega. Ora branca e acetinada, ora rústica e azul-anil, elas carregam reminiscências de sua infância e sensualidade de mulher adulta.
De um lado, revelam momentos de criança de quintal de boa avó a compartir sua horta com água de poço, galinhas e cacos de louça espalhados pelo chão. De outro, apresentam a profissional preocupada com a fecundidade e a procriação. Se outrora viveu a cozinha da casa da avó onde nasceu e aprendeu a colher vagem e apreciar a cor do céu; agora, constrói sua própria cozinha onde queima esferas fechadas e semi-abertas entre 1.100 e 1.250 graus.
Entre extremos caracterizados aqui por alfa e ômega, observa-se em sua cerâmica, nas outras coisas que faz e nas estórias que diz um ponto comum para ambos. Trata-se do fogo – elemento presente, em seu signo do Zodíaco, no fogão da avó de sua infância, no forno de artista e na face de mulher.
Ivens Fontoura
Artista visual, designer, escritor e professor universitário